domingo, 23 de dezembro de 2012

Pelo lado errado

A lágrima ficou presa na garganta, e o pobre do grito, bastante perdido no percurso, acabou por parar no estômago!
Demorou que ele entendesse onde é que o tinham enfiado... Sempre que o empurravam para fora, não costumava dar nem tempo de iniciar a cronometragem e já estava em campo aberto! Voando na velocidade de um foguete-bala! Mas, dessa vez.... Ele sentiu a mesma velocidade de sempre, mas não não reconhecia a paisagem pela qual ia sendo jogado... Antes, era sempre um túnel escuro por milésimos de segundo que ele nunca conseguiu contar, e depois, a luz! Fosse a do dia, ou da noite. Saísse ele dentro de uma casa, uma escola, uma sapataria, uma lanchonete, em um campo de futebol, ou no mangue. Não importa. Era sempre espaçoso lá fora... Quer dizer, dessa vez não era! Dessa vez era túnel escuro atrás de túnel escuro, batidas cegas em lugares úmidos. Começou a ficar com medo. Batia aqui, batia acolá... Como haveria de se esquivar? Começou a inchar. E de inchaço em inchaço, de centímetro em centímetro, dilatando sempre mais e mais... e mais... e ainda um pouco mais... Parece que encontrou liberdade em um estouro. Mas não viveu o suficiente para contar história. 

Segundo dia


Lá fora da janela, a vida é bela
Mas o quarto pequeno sufoca a gente
Desmente o que a gente sente
quando olha lá fora.

Aqui é quente, mas é frio
está transbordando de um torto vazio.
Quero sair-me de mim.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

...

    A vontade era de mandar todo mundo tomar no cu. Sim. No cu, porque não? Aliás, talvez não tomar no cu... Isso seria um conselho gentil demais para aquelas pessoas.... Talvez um soco no nariz... ou no estômago... Ou gritar na orelha das pessoas! Sim!!! Encher os ouvidos de todos com tanta bosta gritada que a cabeça deles iria até ficar pesada... Quem sabe explodir! Que imagem maravilhosa!!!
   Mas não. Ele já havia aprendido. O direito de gritar e vomitar fezes nas outras pessoas era dado apenas ao chefe. E a ninguém mais. Ninguém? Claro que tinha mais gente... A porra do público! Os frequentadores! Eles também tinham o direito de cagar na cabeça do atendimento. Aliás, ele desconfiava que haviam comunidades que cultivavam pessoas infelizes, maltratadas, constantemente humilhadas (assim como ele) e, de vez em quando, enchiam vários ônibus desses coitados e os levava para ter o único momento de alegria de suas vidas: tratar ele do mesmo jeito como eram tratados. Sentir o gostinho de ser superior a alguém, de poder humilhar aquilo que estava abaixo deles... Pensar nisso fazia-o ter um minuto de pena das pessoas que o faziam tão mal... Um minuto. Foda-se! Que merda! Eu nunca tratei ninguém mal para merecer isso! E olha que motivo nunca me faltou... Estou cada vez mais cheio... Mais cheio... Meu... coração... vai... parar... congelou de ódio, vai explodir... 
    - Menino! Que bom que eu te encontrei! Você melhorou? Estava tão gripado na semana passada... Fiquei preocupada! Trouxe um chá! 
    - Dona Maria? Mas, imagina... Não precisava se preocupar não... Já está tudo bem...
   - Claro que tem que se preocupar menino! Não era nem para você ter trabalhado daquele jeito... Tinha que descansar... Eu te fiz um doce também...
    - Dona Maria... Assim eu não consigo ter raiva do mundo...
    - Raiva menino? Mas raiva só faz mal para o seu coração. Envelhece. Não vale a pena ter raiva não. Olha, se eu vivi tanto tempo, é porque aprendi a não guardar mágoa, não acumular raiva. Você é um rapaz tão novo! Tem tanta coisa bonita para viver ainda...
    - ...
    - Quer me contar o que aconteceu?
    - Nada não... esquece Dona Maria... o doce é do que mesmo? 

sábado, 26 de maio de 2012

É a festa do cola velcro!

    Para quem ia ficar em casa remoendo suas dificuldades de escrever um TCC, ganhei um mega presente. Um passeio pelo centro de São Paulo! Mas não um passeio qualquer. Um passeio que envolvia velas, copos de plástico pegando fogo, amplificador, microfone, pseudo-padre, mini-saias, estandarte, gente muito doida e uma santa. Tratava-se da Procissão da Nossa Senhora do Cola Velcro! 
    Durante o percurso, saindo da Praça Roosevelt até o Teatro Municipal, algumas paradas para realização de milagres, orações, e, porque não, sensualizações e danças. Gente que se perdia no caminho, gente que decidia acompanhar a procissão...  Gente que espichava o pescoço de dentro de bares e lanchonetes tentando entender o estandarte da tal nossa senhora do cola... velcro? Gente horrorizada. Gente rindo alto! Gente convertida passando a mão na santa. Gente escrevendo seus desejos... Gente. Gente e concreto. Gente se misturando ao concreto. Concreto, centro de São Paulo e gente.
    Gente que, aliás, foi o nome da última peça do grupo Tia Tralha (pelo menos da última que assisti... talvez nem seja esse exatamente o nome, mas é como consegui me lembrar agora), sacerdotes de nossa santa e organizadores de sua primeira procissão. Será que essa galera sabe o quão significativa é essa possibilidade que eles nos ofereceram de passear pelo centro desse mar cinza infinito? De estar em tal lugar pretensamente público, ESTAR de fato, não apenas andar aos tropeços da pressa que acompanha todos os paulistas em sua rotina, ter a possibilidade de olhar os detalhes desapercebidos como parte da mesma mancha cinzenta, ter a possibilidade de falar com as pessoas que andam ao seu lado (mesmo que seja apenas para pedir uma ajuda para reascender sua vela), de olhar as pessoas, de fazer parte de um coletivo que de tão aberto é imprevisível. Qualquer um pode entrar em marcha ao seu lado. É sua chance de deixar preconceitos de lado, e olhar para o morador de rua que decide acompanhar a procissão como parte de um mesmo coletivo que você. E conversar com ele sem aquele medo rotineiro introjetado na nossa consciência automática de dia-a-dia em movimento. 
    Perguntei se o grupo sabe da significância dessa experiência de rua? É bem possível que estejam pensando sobre. Ao fim da procissão fica a promessa de, em breve, realizarem uma peça de rua. E eu que nunca sei finalizar um texto de forma genial e marcante apenas digo: Que legal! Mais um grupo bacana a caminho deste espaço tão vivo, pulsante, cheio de conflitos, estímulos e possibilidades: A RUA!

terça-feira, 6 de março de 2012

O dom de deixar ir embora

Porque eu não consigo segurar as coisas?
Não estou falando de possuir... Nunca foi esse o verbo.... Estou falando de... Estar. Porque é tão difícil estar? As coisas se esvaem da minha presença. Não todas, mas as que eu aprecio, fundamentalmente. As coisas que eu aprecio paracem esvair-se de mim de tempos em tempos. Não permanecem. Não conseguem estar em mim. Digo coisas pois os olhos marejam se usar o termo pessoas...

Deixar ir é um dom. Um dom. Queria aprendê-lo em algum livro, pois tudo que vai, para mim permanece. E ocupa tanto espaço... E eu vivo de permanências... Das permanências que  vou costurando na minha pele ao longo dos anos de vida. Costuro com fios de solidão, e cada vez que costuro, ela se torna a única coisa de verdadeiramente material que carrego. A tão lembrada, querida e presente ... solidão.


domingo, 19 de fevereiro de 2012

À minha menina

O que fizeram com você, minha menina?

Te cobriram de concreto,
Te tiraram o afeto

o horizonte
o verde
a vida
até a garoa...
Cade tua garoa, menina?

Te prenderam no cinza
Sufocaram teus sentidos
Te jogaram num abismo
De tempo torto, acelerado, partido

E mesmo com tanto maltrato,
tanto flagelo,
sei que ainda é viva, menina.
Debaixo dessa carapaça cinza,
sei que ainda pulsa!
Pulsa... Pulsa...
Pulsa com aquela intensidade tamanha
que apenas as gigantes podem.

E sentindo sua vida,
sentindo esse pulsar que me movimenta
Também eu me revisto do seu cinza
Também eu me faço de concreto.
Esfrio o sangue em minhas veias
e busco pulsar no ritmo que te impuseram.
me submeto ao que te submetem
e sinto algo de vivo esvair-me lentamente...

Não. Não fica triste menina...
Porque é assim.
É assim que a amo
te enxergando poesia tanta
e te percebendo
lenta e cruel
assassina minha de cada dia