Já não ouço seus gritos estridentes zunindo meus tímpanos. Não vejo mais seu rastro preguiçoso e pesado na poeira do chão. Não mais sinto o cheiro forte e amargo do café que ela passava diariamente para receber minha impotência e a tão antiga auto estima dilacerada (que inclusive faltou nos últimos encontros... coitada, fazia um tempo que andava agoniante).
Enfim. Sua presença já não é clara como outrora. Não sei se superei-a ou se ela me devorou.
De fato, já faz uns dias que sinto-me mastigada. Triturada... doloridamente partida em tantas difusas e estranhas partículas...
Mas de alguma forma, ainda sólida. Ainda pulsante. Ainda viva.
- Essas marcas de dentes...
Talvez eu só não tenha sido digerida ainda! Faz sentido....
Sorry, dona Carência. Devia ter avisado antes: Eu não sou muito fácil de se digerir. Carrego em meu DNA o gene mutante da regeneração: enquanto você está a dissolver-me, eu estou a reconstruir-me. Renascendo diferente a cada vez para não te facilitar o trabalho de encontrar-me. Escondo-me por entre as lacunas das minhas dúvidas sobre o movimento dos astros, debaixo de uma estante velha onde coleciono certezas que nunca me pertenceram, logo atrás do corredor cheio de caixas de lembranças sem propósitos, mas cheias de espírito. E nessa brincadeira de esconde esconde, me transmuto. Regenero. Sempre te encontrando, sempre me refazendo.