quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

Revisitando o passado....

    Revisitar alguns momentos do passado me fazem sentir que muita coisa faz parte de outra vida. Ou que foi tudo parte de um sonho muito estranho.... um sonho daqueles em que muitas vezes, parece não ser sonhado por você. Confuso? Já parou pra analisar de leve alguns momentos muito distantes (em tempo e em realidade sua atual) e teve a impressão que ali, naquele momento, aquela pessoa que viveu tudo aquilo não era você? Pois é... Aquela pessoa não parece ter sido eu... 
    Será que a gente muda tanto assim a ponto de não se reconhecer? Ou será que a gente é uma semente, ainda dentro de um casulo social moldado por nossa família e comunidade.... uma lagartinha dentro de um casulo de aparências criadas por outras pessoas... só digerindo tudo de que se alimentou por anos, elaborando, questionando, esperando o momento certo de romper a máscara e se ser quem realmente nascemos para ser, quem realmente somos... Isso tudo em meio a uma constante construção desses conceitos de nós mesmos...
    Algumas coisas ainda identifico de mim....Essas coisas podem ser genuinamente minhas, ou uma herança de criação que me agrada, e eu acabei aderindo esse acessório a meu look contemporâneo, vai saber... Mas ainda olho e me parece tanto outra pessoa.... Uma pessoa tão distante que eu nem sei se teria como amiga! Também não sei se ela iria me querer em tal posição. Estranho. Como a gente pode se tornar algo que já nos causou repulsa... Mas causou mesmo? Se causasse mesmo, não teríamos trilhado esse caminho, certo? Quem se jogou nessa direção foi essa menina que não reconheço, afinal. Ela quem rompeu com todos aqueles conceitos de moralidade que ela pregava com tanto afinco. Ela que terminou relações, saiu de núcleos sociais, visitou outros, evitou alguns casamentos que na visão de mundo que ela propagava teriam sido convenientes a beça. Ela largou tudo que era conveniente para seu discurso, e na época, ela nem sabia muito porque. Eu desconfio dos motivos... Eu agradeço a coragem dela. A coragem de se jogar no vazio sem saber o que a espera. Confiando apenas em uma coisa tão imprecisa como a intuição. 
    Gratidão menina. Venha cá me dar um abraço. Aquela voz era sua. Era nossa. Sempre foi. A coragem de se lançar ao espaço sem chão é o que te fez ganhar suas próprias asas e voar. Não importa para que direção, não importa se não há aprovação de pessoas que já te foram ou são tão caras. Esse voo é seu! Não lamente as perdas do caminho. O que não pode carregar era peso que te impediria de voar. O que era de seu destino vai voar junto com você. Acredite. Acredite nessa voz que é sua, que é nossa. Acredite mais uma vez. Porque nessa vida, não se vira borboleta só em um momento não. É um ciclo. É como a lua que te rege. É como seu corpo. Se prepare para sair do casulo mais uma vez. Segura minha mão e me dá a coragem que você teve para eu também me atirar sem garantias. Me ensina a voar. 

quarta-feira, 6 de novembro de 2019

Ele

    Ele provavelmente descende de algum deus nórdico com algum deus africano. Uma mistura inexata daquela força viril com uma magia ancestral... Intenso, profundo, intraduzível. Olhos de tempestade. Magnéticos e avassaladores. Emana uma força animalesca, mas rompe o silêncio com palavras em estado de poesia bruta. É belo... mas esquivo. Não se deixa tocar. Mas não te deixa ir embora tampouco. Sente o cheiro do seu desistir e isso desperta o caçador que carrega em si. Mas o espírito de caça é de felino a se entreter. Não pretende matar, não embosca para comer. Traz a presa de volta ao calor de sua respiração e brinca com ela, sedutor que só.   
     Mas ele está mirando a vítima errada. Também tenho ascendência divina... Carrego o poder de deusas antigas em meu útero. Flagrei suas não intenções já faz tempo...
     Esse navio pertence ao mar. Pertence a um eterno derivar. Minha existência flui pelo corpo de Iemanjá. Minhas trilhas são traçadas de imensidão, costuradas pelo acaso com fios de destinos incertos... 
     Te convido a embarcar, mas não faço morada no cais a te esperar. Vou com o vento, e tal o vento, não sou passível de aprisionamento. 

quarta-feira, 30 de outubro de 2019

Sobre um fogo...

    Queria falar sobre o fogo. O fogo que seu toque faísca acendeu em minha pele e fez de mim criatura-fogueira-labareda. Incandescente. Indecente.
    Por baixo da fina seda me arde uma sede insaciável. Incansável sina de se querer o toque que não se pode ter. Não se sabe ser...
    Esse fogo não cessa. E de incessar passou a consumir. Tão avassalador que atravessa o corpo, já não cabe em mim. Deixou meu quarto em cinzas, abalou a estrutura da casa. Ameaça a cidade. Está a passear por aí, já tem corpo próprio. Quem sabe em suas andanças esbarre assim sem querer em você... Quem sabe te reconheça enquanto criador... Ou se tenha transformado em besta fera tão irracional que venha a te consumir também. E que a labareda-criatura-besta-fera ao te consumir, enquanto ainda me devora, nos torne um só, no mesmo fogo, mesmo desejo contido que, por firm, queima e nos consome em nós-um-só-corpo que viramos em meio ao incêndio. 

quinta-feira, 19 de setembro de 2019

Deriva

Sou esse bote à deriva.
Casco grosso e marcado
De ferrugem e sonhos
Carregando corpos de medos e esperanças.
Sem saber ao certo onde o mar há de me carregar
O mar é senhor. É soberano.
A rua que calça meus pés também. Nunca sei onde ela há de me carregar.
Por isso devo cuidar de mim. Cuidar para que o casco esteja forte para aguentar qualquer sorte de intempéries...

quinta-feira, 29 de agosto de 2019

Trasbordando

Lacunas imensas indicando que o espaço interno é vasto
Esse vazio corriqueiro que não cessa de soprar seus tornados em meu peito. 
Me faz vento
Leve instavel 
Inavegável. 
Pra que tanta imensidão em um corpo tão frágil
um coração tão vulnerável
Partidas de chegadas
Partidas de quebras
Disperças
Entrecruzadas num emaranhado louco de vísceras e sentimentos
Sentidos que não se explicam 
Implicam 
Respingam

tanto tanto tanto

perdeu-se a meada
os meandros
as sacadas

abre a vala de escoamento! Está transbordando.... 

quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

Feita de mar

A água salgada em ondas
Dissolve a areia por entre os dedos do meu pé.
Fisgo memórias misturadas a retalhos de concha.
A pérola em potência que nunca se concretizou...
Partiu-se em milhares
Não enriqueceu quem a encontrasse,
Não fez-se beleza de dama.
Mas virou mar.
Virou imensidão.

terça-feira, 15 de janeiro de 2019

Posso ouvir o vento passar....

São tantas as vezes que busco abrigo nos anciões espíritos que habitam o não civilizado do mundo que me sinto eu mesma um espírito ancião. Me deslumbram as palavras, mas me deslumbra ainda mais aquele comunicar que não se faz por elas. Aquele estado de contemplação em que tudo é dito, ouvido e compreendido pelos poros da pele, pelo pulsar do sangue nos caminhos confusos desse corpo que habito. As palavras poluem demais meus pensamentos. Tantas vezes quero apenas sentir. Sentir para onde caminha essa abstração que chamo de vida, sentir a existências de tantas outras pulsões humanas, tantas milhões que estão ali, ao alcance da minha visão, comandando a sinfonia de luzes que avisto da minha varanda. Queria apenas sentir-me. Viver-me. E sentí-los e vivê-los nessa comunhão louca que o vento me traz nesses raros momentos que me parecem tão lúcidos, ainda que intraduzíveis. Os seres humanos conseguem ser tão desprezíveis.... Mas como podem ao mesmo tempo ser tão encantadores? Cada vida tão preenchida de tantas histórias, de tantos significados... e cada existência um milagre virando poeira na multidão que nos consomem. Não nos vemos, perdemos o valor para nós mesmos... E a onda de ódio gratuito que cresce a cada caractere dolorido jogado no vazio de um texto que se prolonga em caminhos não elaborados que ninguém vai ler... São tantas possibilidades se concretizando ao mesmo tempo em um tão frágil e uno coração

Navegando no asfalto

Pela turva janela do busão às vezes penso que sonho.
Penso que deliro
Que navego por nuvens nunca antes navegadas
O calor do motor me entorpece
O balanço morno me remete a algum útero torto
Roto e enlatado
Bruto, enclausurado
A mente divaga
Transitando louca entre o aperto que mata.