segunda-feira, 20 de novembro de 2023

Faxina

Deixar o vazio entrar. Se instalar, ficar a vontade. 

Preparar um café para a ausência que se apresenta. Abraçá-la. Fazer morada em seu peito. Chorar tudo o que não me serve mais. Chorar até desaguar no mar. Virar imensidão. O todo. O nada. De mãos dadas pelos campos ardilosos do acaso. Já estive aqui antes, sei navegar nas suas águas. Também sou água, sabia? Se me perco em teu infinito é pra encontrar-me. Sentir-me mais eu. De novo infinito. De novo impossível, irrefreável. 

Não se pode guardar o mar na térmica da sua lancheira. Eu não caibo. Eu não quero caber. Eu não consigo mais me apequenar. Meus braços alçam voo no meu corpo que é infinito. Também já fui vento, sabia? 

sexta-feira, 5 de maio de 2023

Eu sou poesia

 Meu amor... Não tente me entender prosa que você pode se perder em queda livre por entre emaranhados de combinações improváveis e incabíveis de palavras. Sou poesia.


Não me queira linear e racionalizável. Sou escrita automática brotando dos sonhos de um surrealista embriagado.

Não me queira ler em fatos despretensiosamente num domingo de manhã. Meus versos são livres e correm soltos num campo imagético sem padrões estabelecidos.

Não me queira pintura barroca, angelical e feita para apreciação de seus olhos. Sou dadaísta, e talvez você só enxergue um mictório se não souber ler atitudes.

O concreto que corre em minhas veias brota das ruas do caos. Dos meus pulmões envenenados por infindas toxinas jorram gritos de desespero inaudíveis aos parnasianos. Meu coração habita a deriva. Se quiser embarcar nesse navio ingovernável, entenda. Eu sou esse tipo de poesia.

Quase

 A poética do quase.

O beijo que quase aconteceu.

O amor que quase se concretizou.

A palavra que quase se apresentou.


A vida que poderia ter sido... Que tinha tanto potencial...


Mas morreu dormindo. De causa desconhecida.