Para quem ia ficar em casa remoendo suas dificuldades de escrever um TCC, ganhei um mega presente. Um passeio pelo centro de São Paulo! Mas não um passeio qualquer. Um passeio que envolvia velas, copos de plástico pegando fogo, amplificador, microfone, pseudo-padre, mini-saias, estandarte, gente muito doida e uma santa. Tratava-se da Procissão da Nossa Senhora do Cola Velcro!
Durante o percurso, saindo da Praça Roosevelt até o Teatro Municipal, algumas paradas para realização de milagres, orações, e, porque não, sensualizações e danças. Gente que se perdia no caminho, gente que decidia acompanhar a procissão... Gente que espichava o pescoço de dentro de bares e lanchonetes tentando entender o estandarte da tal nossa senhora do cola... velcro? Gente horrorizada. Gente rindo alto! Gente convertida passando a mão na santa. Gente escrevendo seus desejos... Gente. Gente e concreto. Gente se misturando ao concreto. Concreto, centro de São Paulo e gente.
Gente que, aliás, foi o nome da última peça do grupo Tia Tralha (pelo menos da última que assisti... talvez nem seja esse exatamente o nome, mas é como consegui me lembrar agora), sacerdotes de nossa santa e organizadores de sua primeira procissão. Será que essa galera sabe o quão significativa é essa possibilidade que eles nos ofereceram de passear pelo centro desse mar cinza infinito? De estar em tal lugar pretensamente público, ESTAR de fato, não apenas andar aos tropeços da pressa que acompanha todos os paulistas em sua rotina, ter a possibilidade de olhar os detalhes desapercebidos como parte da mesma mancha cinzenta, ter a possibilidade de falar com as pessoas que andam ao seu lado (mesmo que seja apenas para pedir uma ajuda para reascender sua vela), de olhar as pessoas, de fazer parte de um coletivo que de tão aberto é imprevisível. Qualquer um pode entrar em marcha ao seu lado. É sua chance de deixar preconceitos de lado, e olhar para o morador de rua que decide acompanhar a procissão como parte de um mesmo coletivo que você. E conversar com ele sem aquele medo rotineiro introjetado na nossa consciência automática de dia-a-dia em movimento.
Perguntei se o grupo sabe da significância dessa experiência de rua? É bem possível que estejam pensando sobre. Ao fim da procissão fica a promessa de, em breve, realizarem uma peça de rua. E eu que nunca sei finalizar um texto de forma genial e marcante apenas digo: Que legal! Mais um grupo bacana a caminho deste espaço tão vivo, pulsante, cheio de conflitos, estímulos e possibilidades: A RUA!