quarta-feira, 6 de novembro de 2019

Ele

    Ele provavelmente descende de algum deus nórdico com algum deus africano. Uma mistura inexata daquela força viril com uma magia ancestral... Intenso, profundo, intraduzível. Olhos de tempestade. Magnéticos e avassaladores. Emana uma força animalesca, mas rompe o silêncio com palavras em estado de poesia bruta. É belo... mas esquivo. Não se deixa tocar. Mas não te deixa ir embora tampouco. Sente o cheiro do seu desistir e isso desperta o caçador que carrega em si. Mas o espírito de caça é de felino a se entreter. Não pretende matar, não embosca para comer. Traz a presa de volta ao calor de sua respiração e brinca com ela, sedutor que só.   
     Mas ele está mirando a vítima errada. Também tenho ascendência divina... Carrego o poder de deusas antigas em meu útero. Flagrei suas não intenções já faz tempo...
     Esse navio pertence ao mar. Pertence a um eterno derivar. Minha existência flui pelo corpo de Iemanjá. Minhas trilhas são traçadas de imensidão, costuradas pelo acaso com fios de destinos incertos... 
     Te convido a embarcar, mas não faço morada no cais a te esperar. Vou com o vento, e tal o vento, não sou passível de aprisionamento.