quarta-feira, 20 de março de 2013

Ansiedade

De repente está tudo tão difícil que as palavras faltam. O ar falta. Sobram batidas do coração. Batidas aceleradas demais, fortes demais. Sobram lágrimas e uma pitada de dor. Onde? Não se sabe. Já sentiu uma dor que você não consegue localizar? Ela está ali. Doendo. Doendo... Mas, você não acha a danada. Ela grita. Grita mais ou menos a tanto que você mesmo gostaria de gritar. Ela é mais corajosa, e grita o grito que era seu. E grita nas suas células. E chega no coração. O coração acelera, e parece não voltar ao normal, por mais que você peça, implore, barganhe. As vezes é assim. As vezes é assim por muitas vezes, vezes demais. Mas passa. Dizem que sempre passa. No começo, é assim mesmo, depois passa... Mas, se sempre passa, será que não é porque sempre volta?

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Dois meses

Minha gente
Ninguém morre de amor não.
A gente morre é de ausência.
A gente morre é de ilusão.

O que envenena é o amargor...
Ah, é sim senhor!
Amor quando forte muito
Defunto não há de fazer.
Embriaga, bota tudo a rodar.
É aquele sentir que faz o coração tremer!

Por isso digo afirmo
A única coisa que faz do amor ser medo
É o seu depois

sábado, 16 de fevereiro de 2013

Sobre o que não se escolhe por nas veias

Hospital. Sala de espera. Sala de espera com ganchos. Duas bolsas de medicamento nos ganchos. Duas bolsas de gotas infinitas. Gotas que pingam... pingam...
Pinga. Sua mãe está ao seu lado. Pinga. "Que bom!" Pensando no ano que passou, não consegue lembrar da última vez que pode desfrutar desse prazer tão simples de ter a mãe por tão perto. Pinga. Quando criança, sonhava em ter um cachorro. Pinga. Mas cachorros não iriam bem no apartamento pequeno que cresceu. Pinga. Cresceu e decidiu sair da casa da mãe. Pinga.... Pinga... Quando pediu um animal de estimação a mãe, esta lhe deu peixes. Era o que cabia no apartamento, afinal. Pinga. Pinga. Pinga.Peixes não são afetuosos. Primeiro sintoma de hipoafetuosidade. Pinga. Pinga. Pinga. Algumas noites não respira, seu novo apartamento é no centro. Poeira. Ácaros. Corisa. Pinga! Medicamento antialérgico cortizona pinga muito devagar. Passa uma hora e ainda estamos na primeira bolsa. Pinga. Uma amiga recentemente lhe conta sobre uma mulher que perdeu um braço por excesso de uso de cortizona. Mas o cortizona está ali, pingando para dentro de suas veias. Pinga. Pinga. "Enfermeira! Já foi o suficiente! Meu pulmão já está cheio de ar, minha pele desinchou. Já foi o suficiente, posso tirar essa agulha do braço?". Já se passaram duas horas. Pinga. A enfermeira não acha que foi suficiente. A enfermeira tem mais poder sobre o seu corpo do que ela própria. Pinga. Ela não decide nem o que pode correr em suas veias. Pinga. Não decide sobre o que seu corpo aceita ou não. Pinga. Depois de emancipada, decide ter um cachorro. Pinga. Pinga. Conheceu aquele rapaz com quer estar a vida toda. Pinga. Já fazem dois anos. Pinga. Estranhamento em relação a sensação de felicidade. Pinga. Pinga. Possível princípio de reação alérgica. Pinga. Seu corpo nem sempre aceita aquilo que você quer! O rapaz dizendo adeus, sangramento interno inestancavel, nova crise de hipoafetuosidade. Pinga. Algumas doenças com o tempo se tornam crônicas. Pinga. Três horas, estamos na segunda bolsa. "Enfermeira, está muito devagar". Pinga. Vamos abrir apenas um pouco mais... pingapingapingapingapingapinga..... Um súbito escuro. D...e....s...m...a...i...o.... ..... .... .... .... ..... .... ..... ..... Cai a pressão, cai o corpo, caem as lembranças.  "Mas o tempo não tinha que curar tudo?" Pinga. O medicamento tem que cair lento na veia. Pinga.  O cachorro! Agente causador de um aumento considerável no índice de afeto no sangue. Ela decide ter o cachorro. Pinga. Primeiro dia, olhos vermelhos, respiração suspensa durante a noite. Pinga. O cachorro parece gostar dela. Pinga. É reciproco. Pinga. Pinga. Perdas na terceira noite: garganta, olhos, ouvidos, pulmão. Pinga. Chega no hospital com a pele coberta de urticárias, reação alérgica, atendimento em urgência. Pinga. Médica : "você nunca vai poder ter animais de estimação". Hipoafetuosidade crônica. Pinga. Pinga. Três horas e meia. Já perdeu a conta de quantas pessoas já entraram, tomaram seus soros, e sairam pela mesma porta. Mas, a cortizona pinga devagar. A vida se esgarça em sua frente enquanto seu corpo é tomado por uma substância indesejada por ela. Tudo vai embora. As imagens que a marcaram desde a sua infância vão passando como em câmera lenta... E nada permaneceu.Tudo se desfez em sua frente sem que tivesse a chance de tentar manter ou de apenas se despedir. Tudo foi... Menos aquelas gotas infinitas. Pinga... Pinga... Pinga...