terça-feira, 9 de setembro de 2025

Mais um dia

 Passeio ébria entre desejos contraditórios. 

 De um lado me puxa pela mão o desejo de ser invisível, enquanto com minha outra mão acaricio e tento fazer dormir o desejo de ser vista. O desejo de ser quista, esse está sempre a emaranhar-se com o medo do cárcere. A liberdade brinca de corda com a solidão, que acorda devaneios das mais diversas idades por onde passa. Passo um café. Mais um café extra forte pra minha força, que anda exausta e pedindo férias, mas ainda tem mais três tarefas para finalizar antes do pôr do sol. 

 Enfim... Apenas mais um dia. 

29/08

 Passou-se um mês. Algumas coisas decantaram, de outras já não sei. Já não sei inclusive se faço questão de saber. Quase fui partida por pautas outras que nem eram minhas. É tempo de separação. Deixar no balaio apenas o que é essencialmente meu. O resto deixar ir embora no rio do tempo. Deixar fluir. Estava de visita. Estava de passagem. Passou. Sem mágoas, essas pesam demais e o caminho ainda é longo 




"Mas não tem revolta não

Só quero que vc se encontre

Saudade até que é bom

É melhor que caminhar vazio

A esperança é um dom 

Que eu tenho em mim..."

domingo, 3 de agosto de 2025

29/07/2025

Serrita, 05h30 da manhã .

Não estava suja, mas acordei mais cedo para poder tomar o último banho. A água do chuveiro que parece doce. A água que sai do corpo alaranjada pela poeira que faz moradia no corpo desde a chegada nessas terras. É tempo de se despedir.

Tantas coisas me atravessam que o corpo chega querer partir. A casca é mais dura do que se supõe. Parto, porém inteira. Talvez mais inteira que antes, apesar de sentir sintomas de saudades próximos...

Mas ainda falta um último destino. Ainda falta uma última vela. 


Exu, depois do almoço, na estrada a caminho de Petrolina. 

A estrada de volta é longa. Mas não longa o suficiente para assentar tudo o que carrego no peito. Trago na bagagem duas pedras, três vestidos, rostos e nomes e histórias. Sorrisos e abraços. Sonhos e delírios. As velas acesas, as conversas internas. As conversas externas. Tudo se misturando e se transmutando. Movimento tão ou mais intenso que o sacolejar da van na estrada esburacada que não me deixa cochilar. Quereres que tentam se manifestar timidamente quando paro de prestar atenção. É preciso estar atenta e forte. Inteira. Sem performances. Sem comprar possíveis provocações. A estrada que me trouxe a Exu é mais antiga que as histórias paralelas. O chamado é anterior a todas as angústias recentes. Nada pode desviar esse destino. A música não é vontade, é caminho traçado em meu peito. Em minhas veias. Meu corpo pulsa esse sol que me rasga. A água laranja do corpo que rasteja nessa terra seca. As velas foram acesas. Ninguém pode apagar. O mesmo caminho que te leva a Exu te leva adiante. Só te resta caminhar. 


Juazeiro, noite


Não vai partir. Não vai. Segura. Respira. Está quase acabando. Há algo que você precisa abandonar nas águas do São Francisco. Se a situação te pressiona é porque você é capaz de decifrar o enigma dessa vez. Você pode. Você vai. Está no meio dessa angústia. Olha pra ela! Está bem ali, no epicentro. 

Ser água. Fluir.

Deixar ir embora as porteiras. 

As barragens.

As cercas.

Libertar o corcel.

Libertar-se

domingo, 23 de fevereiro de 2025

Lágrima

 Eu sinto a lágrima querendo chegar, mas presa no trânsito de São Paulo. 

 Atrasada. Mais uma vez. Perdeu o ponto. Passou do ponto e evaporou. Perdida por aí... Mas é São Paulo né? Ninguém desvia seu caminho para trazê-la de volta. A cidade não pára... A cidade não! Pára! Me descola um pedaço de mato pra me deitar! E um tanto de tempo pra poder esperar. Deixa tempo pra ela chegar. No seu pingar. Pinga. Pinga. Pinga. Esvai... Escorre pelo meu queixo e corre livre pelo vão do meu peito. Faz-se leito. Deita. Sente a terra. Vira a terra. Molha a sede do deserto que você cultivou aqui. Deixa fluir. Flue junto. Faz da lágrima teu rio, que eu te empresto uma canoa... Mas vai! Vai de pressa antes que a lágrima seque. Porque se ela secar, não tem mais como vc partir. Ah não ser partindo as terras áridas deste coração...

sábado, 13 de abril de 2024

Melodia de maré

 

Certas coisas foram feitas pra acabar

Há pessoas que são porto

Há pessoas que são mar


Te quis cais

Mas tu eras travessia

Melodia de maré não se prensa num vinil


Onde já se viu

Querer prender o mar

Querer te acorrentar 

não caberia, não

Não caberá 


Deixa... Deixa a maresia 

Corroer a poesia

Desmanchar meu coração

Quem sabe então...


Certas coisas vão achar o seu lugar

Há pessoas que são porto 

E ao mesmo tempo mar 

Me fiz mar

Desaguei na melodia

A deriva na harmonia de quem tanto já sentiu


Onda já se viu

Querer prender o mar

Querer me acorrentar 

não caberia, não

Não caberá


segunda-feira, 20 de novembro de 2023

Faxina

Deixar o vazio entrar. Se instalar, ficar a vontade. 

Preparar um café para a ausência que se apresenta. Abraçá-la. Fazer morada em seu peito. Chorar tudo o que não me serve mais. Chorar até desaguar no mar. Virar imensidão. O todo. O nada. De mãos dadas pelos campos ardilosos do acaso. Já estive aqui antes, sei navegar nas suas águas. Também sou água, sabia? Se me perco em teu infinito é pra encontrar-me. Sentir-me mais eu. De novo infinito. De novo impossível, irrefreável. 

Não se pode guardar o mar na térmica da sua lancheira. Eu não caibo. Eu não quero caber. Eu não consigo mais me apequenar. Meus braços alçam voo no meu corpo que é infinito. Também já fui vento, sabia? 

sexta-feira, 5 de maio de 2023

Eu sou poesia

 Meu amor... Não tente me entender prosa que você pode se perder em queda livre por entre emaranhados de combinações improváveis e incabíveis de palavras. Sou poesia.


Não me queira linear e racionalizável. Sou escrita automática brotando dos sonhos de um surrealista embriagado.

Não me queira ler em fatos despretensiosamente num domingo de manhã. Meus versos são livres e correm soltos num campo imagético sem padrões estabelecidos.

Não me queira pintura barroca, angelical e feita para apreciação de seus olhos. Sou dadaísta, e talvez você só enxergue um mictório se não souber ler atitudes.

O concreto que corre em minhas veias brota das ruas do caos. Dos meus pulmões envenenados por infindas toxinas jorram gritos de desespero inaudíveis aos parnasianos. Meu coração habita a deriva. Se quiser embarcar nesse navio ingovernável, entenda. Eu sou esse tipo de poesia.