Serrita, 05h30 da manhã .
Não estava suja, mas acordei mais cedo para poder tomar o último banho. A água do chuveiro que parece doce. A água que sai do corpo alaranjada pela poeira que faz moradia no corpo desde a chegada nessas terras. É tempo de se despedir.
Tantas coisas me atravessam que o corpo chega querer partir. A casca é mais dura do que se supõe. Parto, porém inteira. Talvez mais inteira que antes, apesar de sentir sintomas de saudades próximos...
Mas ainda falta um último destino. Ainda falta uma última vela.
Exu, depois do almoço, na estrada a caminho de Petrolina.
A estrada de volta é longa. Mas não longa o suficiente para assentar tudo o que carrego no peito. Trago na bagagem duas pedras, três vestidos, rostos e nomes e histórias. Sorrisos e abraços. Sonhos e delírios. As velas acesas, as conversas internas. As conversas externas. Tudo se misturando e se transmutando. Movimento tão ou mais intenso que o sacolejar da van na estrada esburacada que não me deixa cochilar. Quereres que tentam se manifestar timidamente quando paro de prestar atenção. É preciso estar atenta e forte. Inteira. Sem performances. Sem comprar possíveis provocações. A estrada que me trouxe a Exu é mais antiga que as histórias paralelas. O chamado é anterior a todas as angústias recentes. Nada pode desviar esse destino. A música não é vontade, é caminho traçado em meu peito. Em minhas veias. Meu corpo pulsa esse sol que me rasga. A água laranja do corpo que rasteja nessa terra seca. As velas foram acesas. Ninguém pode apagar. O mesmo caminho que te leva a Exu te leva adiante. Só te resta caminhar.
Juazeiro, noite
Não vai partir. Não vai. Segura. Respira. Está quase acabando. Há algo que você precisa abandonar nas águas do São Francisco. Se a situação te pressiona é porque você é capaz de decifrar o enigma dessa vez. Você pode. Você vai. Está no meio dessa angústia. Olha pra ela! Está bem ali, no epicentro.
Ser água. Fluir.
Deixar ir embora as porteiras.
As barragens.
As cercas.
Libertar o corcel.
Libertar-se