"Olá! Tudo bem com você? E a família? Ah... que bacana... Eu? Ah, então eu fiz um filme... Aqui está ele... Tem algumas questões, se você quiser pensar sobre isso mais tarde quando não tiver mais nada o que fazer..." - Essa definitivamente não foi a abordagem utilizada por Almodóvar.
Confesso que fui um pouco desavisada... Apenas momentos antes de entrar que tive a única tentativa de me alertar sobre o filme "É pesado... Sofri muito durante o filme, e até pensei que poderia ter saido no meio para não sofrer tanto". Mas, não esperava o que encontrei. O filme me invadiu. Sem conceder permissão, sem querer e sem pensar em como poderia reagir e fugir de todo aquele assombro, o filme me invadiu. Me destruiu.
Um começo sutil. Escancarando fraquezas, mas ainda sutil. A mulher trancafiada. A mulher presa de um homem. De um cientista. De alguém que faz experimentos com sua pele. Uma mulher que não consegue libertar-se com a morte. Não consegue. Uma mulher violentada por uma criatura absolutamente asquerosa. Mulher. Sexo frágil... Mal estar. Mas, eis que viramos a balança. Eis que surge a história dessa mulher, e como ela foi parar nessa situação. Eis que chegou o momento em que muitos homens abandonam as salas de cinema. Ou continuam, em estado de choque. Inversão. O filme conseguiu realmente colocar o homem na situação de "fragilidade" feminina. Vera. Vicente. Um homem que não queria ser mulher. Uma mulher que surge sem opção. Pronto! Você é mulher! Seja! Como? Livros? Televisão? O que? Porque? Onde vou aprender a olhar no espelho e me reconhecer.... e me entender... Violação. De um corpo que é você, mas que lhe é alheio. O que resta? Como fugir? Pra onde fugir? Matar... Já não se sabe quem é, qual é sua ética? Qual sua ética para quem não teve ética para com você? Como ser você, se o corpo que você era já não é mais?
Quantas questões? Uma semana depois ainda não foi tudo digerido. A invasão em mim foi profunda, ainda deixou marcas... ainda não trouxe todas as respostas... Talvez nunca traga... Talvez eu apenas deva sair do cinema e comer uma pizza... Foi o primeiro contato com Almodóvar... E tenho que dizer, filho da puta! Você sabe fazer um filme! Não sei nem se posso chamar de filme... Porque filmes, em geral, não tem feito isso comigo... Seja lá o que você fez, vc soube fazer. Assombroso... E ao mesmo tempo genial....
