domingo, 6 de novembro de 2011

Ingenua ida ao cinema...

     "Olá! Tudo bem com você? E a família? Ah... que bacana... Eu? Ah, então eu fiz um filme... Aqui está ele... Tem algumas questões, se você quiser pensar sobre isso mais tarde quando não tiver mais nada o que fazer..." - Essa definitivamente não foi a abordagem utilizada por Almodóvar.
     Confesso que fui um pouco desavisada... Apenas momentos antes de entrar que tive a única tentativa de me alertar sobre o filme "É pesado... Sofri muito durante o filme, e até pensei que poderia ter saido no meio para não sofrer tanto". Mas, não esperava o que encontrei. O filme me invadiu. Sem conceder permissão, sem querer e sem pensar em como poderia reagir e fugir de todo aquele assombro, o filme me invadiu. Me destruiu.
     Um começo sutil. Escancarando fraquezas, mas ainda sutil. A mulher trancafiada. A mulher presa de um homem. De um cientista. De alguém que faz experimentos com sua pele. Uma mulher que não consegue libertar-se com a morte. Não consegue. Uma mulher violentada por uma criatura absolutamente asquerosa. Mulher. Sexo frágil... Mal estar. Mas, eis que viramos a balança. Eis que surge a história dessa mulher, e como ela foi parar nessa situação. Eis que chegou o momento em que muitos homens abandonam as salas de cinema. Ou continuam, em estado de choque. Inversão. O filme conseguiu realmente colocar o homem na situação de "fragilidade" feminina. Vera. Vicente. Um homem que não queria ser mulher. Uma mulher que surge sem opção. Pronto! Você é mulher! Seja! Como? Livros? Televisão? O que? Porque? Onde vou aprender a olhar no espelho e me reconhecer.... e me entender... Violação. De um corpo que é você, mas que lhe é alheio. O que resta? Como fugir? Pra onde fugir? Matar... Já não se sabe quem é, qual é sua ética? Qual sua ética para quem não teve ética para com você? Como ser você, se o corpo que você era já não é mais? 

     Quantas questões? Uma semana depois ainda não foi tudo digerido. A invasão em mim foi profunda, ainda deixou marcas... ainda não trouxe todas as respostas... Talvez nunca traga... Talvez eu apenas deva sair do cinema e comer uma pizza... Foi o primeiro contato com Almodóvar... E tenho que dizer, filho da puta! Você sabe fazer um filme! Não sei nem se posso chamar de filme... Porque filmes, em geral, não tem feito isso comigo... Seja lá o que você fez, vc soube fazer. Assombroso... E ao mesmo tempo genial....

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Sobre não saber falar....

- Porque nos tempos em que a gente vive, essa coisa de fábrica, operários, sindicato... Isso tudo já está quase em extinção. Com a tecnologia, as formas de trabalho mudam... Legal ver a peça, mas não tem mais a ver com nosso mundo não....

Claro. E quem continua a produzir tudo que você consome? Roupas, comida, livros, tecnologia, quem é que produz? As máquinas? E quem produz as máquinas? E quem opera as máquinas? E quem faz a sua manutenção? A própria máquina? O Google? O espírito de Steve Jobs com seus aparelhos mágicos produzidos por deuses talvez, já que trabalhadores não existem mais? - se eu soubesse falar, talvez elaborasse uma resposta que fosse por ai...

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Contexto: Cia Peões em Cena conversam com público depois de apresentação da peça "Pesadelo".

sábado, 15 de outubro de 2011

Sobre a importância do ato de ler *


Ela mal sabia ler. Escrever então...
Ela não sabia ler, e tinha dificuldade de entender o mundo. Achava que não entendia o mundo porque não lia como as outras pessoas.
Por não ler, não sabia que o mundo era todo torto mesmo... E que saber ler não o faria parecer menos injusto... 
E por nem ler, não escrevia. E não escrevendo, não visualizava as palavras, as suas próprias palavras. Não via suas palavras e achava que elas não existiam. Por não escrever, não percebia o quanto as palavras lhe eram íntimas e as coisas tão bonitas que ela construía utilizando de suas companheiras palavras. Mas, ela que não via suas palavras, não percebia o quanto elas eram suas companheiras, e se sentia só.


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* e que Paulo Freire possa perdoar-me por parafraseá-lo...

com saudade e sem foco...

    Ele continha o céu nos olhos. Ela não sabia como ele conseguira aquilo, mas o fato é: ele continha mesmo o céu inteiro nos olhos. Um olhar de imensidão... E ela... ela já havia perdido a paciência para histórias mágicas há tanto tempo... para príncipes nunca teve vocação. Mas, esse olhar de imensidão tinha algum encantamento diferente. Diferente de suas aventuras fantásticas falidas anteriores. 

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e foi ao lado dele que percebeu: Não fora feita de abismo. Aquele imenso vazio que abrigava em si, na realidade, tinha outro nome. Era solidão. Solidão e vazio que iam embora com aquela presença que se tornava cada vez mais constante em sua vida... Ele trouxera humanidade para ela, e um outro sentimento novo que ela chamara, a princípio, de completude... 

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E a autora se pergunta: Quão bixa a saudade me faz ser?

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

ela apenas sorria...



      E um dia aquela tão bela flor começou a murchar... E seus cuidadores, querendo poupá-la da destrutividade do mundo, foram colocando a pequena flor cada vez mais para dentro de casa, para os cômodos mais distantes, mais fechados, mais isolados, mais inóspitos...  Ela apenas sorria para eles, enquanto definhava cada vez mais. Não... eles não sabiam... E ela não tinha como lhes contar. Eles não sabiam que seu alimento era o mundo. Sua vitamina as pessoas, as vivências, os novos lugares. Não sabiam. Não sabiam que justamente suas preocupações e seus cuidados a matavam um pouco mais a cada dia... E faziam com tanto amor! Tanto amor... que ela apenas sorria, sentindo sua vida se esvair...

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Ela só sabia comer...

     Ela só sabia comer. Quer dizer, saber saber, ela sabia algumas outras coisas. Mas o que ela fazia melhor era comer. Comia muito e sempre que podia. Mas gostava do mundo. Apaixonara-se por ele. Queria conhecer o mundo! Queria conviver com os seres humanos, fazer parte de toda aquela complexidade sem sentido para a qual pessoas passavam a vida tentando inventar razões. Achava engraçado o jeito como os humanos acreditavam-se tão racionais argumentando sua insensatez. Queria se aproximar! Que pelo menos alguém a olhasse e ela pudesse olhar fundo a pessoa em retribuição. Queria muito... Mas comia tanto! Tanto e tão incessantemente que já não podia nem andar. Rastejava. Rastejava e comia. E quando não comia, dormia. E dormia quase tanto quanto comia e rastejava.
Um dia sonhou.
     Sonhou que teria o tamanho de um vôo e que assim poderia ser parte do mundo, na altura e proporção que desejasse. Acordou, Comeu, Dormiu e Sonhou. Sonhou com um anjo negro executando um vôo torto. E em meio a um momento de turbulência, derrapou no horizonte, tropeçou em uma nuvem e caiu perdido, com suas asas quebradas exatamente no meio dos sonhos dela. Acordou, Comeu, Dormiu e Sonhou. E quando sonhava, via o anjo. Não sabia se era de fato um anjo (ainda mais agora que já não tinha asas). Já não importava o nome, o fato é que ele estava sempre lá.
     E um dia comeu, dormiu e sonhou que o anjo culpava-a de seu aprisionamento. Acordou. Comeu, dormiu e sonhou que o anjo a amaldiçoava.
     Comeu e Dormiu, e as palavras soavam com muita clareza: “Teu ciclo marásmico de mediocridade terá fim. Não mais irás viver para devorar o mundo para logo depois vir sonhar-me. Terás tua liberdade. Terás asas. Não mais estarás presa ao rastejar. Finalmente pertencerás ao mundo. Porém, terás apenas um dia. Um dia para ser livre como jamais sonhastes! Apenas e tão somente um dia. E essa é a maldição de um anjo”.
   

Tato

 Preciso tanto tocar as coisas, porque elas são irreais para mim. Tão irreais...
 Eu sou tão irreal para mim... Mas tocar-me não basta.
 Preciso tocar as linhas tortas deste universo, sentir-me continuação de algum fio solto.
 E são tantos fios soltos...
 Gostaria de mergulhar no novelo e preencher de caos essa incompletude... Ou apenas mergulhar. Sentir. Alguma coisa. Qualquer coisa. Apenas um novo lugar...

Visitação

Olá amiga solidão! Quanto tempo! Olha... Devo dizer que você engordou desde a última visita...