segunda-feira, 6 de dezembro de 2021

O mar não está para caranguejo

    Em tempos de amores descartáveis, onde se abrigam os que muito sentem?
    Como os emocionados sobrevivem às relações deletáveis? 
    Paixões miojo, instantâneas, não saciáveis, não nutritivas, cheias de sódio e distâncias... Viver de gastrite afetiva não estava nos meus planos. 
    Endurecer a casca, afiar as garras e não deixar que ninguém se aproxime? Não sair da toca? Agir contra sua natureza para se adequar? Mas eu gosto tanto de ser-me... E ainda que não gostasse, como poderia eu não ser-me. Como pode qualquer pessoa não ser-se? 

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Como pode qualquer pessoa não ser-se...

sábado, 11 de setembro de 2021

Um brinde

 Celebremos a presença do amor!
 Do excesso de amor represado e revolto.
 Transbordante. Inquieto.
 Reivindicando um destino. 
 Brindo a intensidade desmedível desse amor indedicado a criatura qualquer!
 Brindo a todas as vezes que ele se doou a relações inexistentes!
 A todos os afagos imaginários e solitários de um coração que amou demais e recebeu de menos. 
 Brindo a todos os amados que jamais souberam de seus papéis nessa novela. Igualmente brindo a todos que participaram do casting e não foram aprovados. E àqueles que desistiram do job no segundo dia de filmagem. 
 Brindo também àqueles que fizeram desse amor seu parquinho, prometendo nele fazer morada, mas partindo antes do lanche da tarde. 
 Brindo e celebro. E danço embriagada sobre o cadáver do meu passado. 
 Bailamos nossa última dança. Despeço-me do mausoléu. Nua da carne de meu corpo. Veias abertas e expostas. Fartas. De cansaço e abundância. 
 Sem rumo certo, quero apenas caminhar sob o sol, me banhar de mar e tocar o tangível concreto que o mundo me apresentar. De resto ficam apenas as cinzas desse defunto passado boiando na espuma das ondas que já caminham distantes do meu horizonte. 
 

sábado, 7 de agosto de 2021

Ei... Posso dormir na sua casa?

     Paixões rasas aleatórias são minha especialidades. Mas aquele tipo de paixão de filme, correspondida, arrebatadora, única, creio que tive apenas uma vez na vida...

      Foi um relacionamento que teve lá os seus dois anos de média. Dois anos que carregaram tristezas e feridas, claro, mas dois anos em que amei e me senti amada em proporções que beiravam o infinito. Relação essa que já teve seu desfecho faz uns dez anos. Recentemente desenterrei uma vivência relacionada a essa relação em terapia, e é dessa experiência que venho vos falar agora.

    Não. Não é uma experiência das tantas lindas, maravilhosas e cheirosas dos tempos em que a relação ainda existia... É uma que veio após o término.

    Uns meses após o traumático término... Traumático de minha parte por ser completamente inesperado. Inesperado por se tratar de ser um relacionamento daqueles com aquelas pessoas que temos certeza que jamais terminará... Inesperado nível você soltar algo completamente insano do tipo "Você está terminando comigo por causa do Alice Cooper?". É... a mente humana trabalha por caminhos estranhos... Sorry, Alice Cooper. Nunca quis te responsabilizar por esse tipo de coisa.... 

    Enfim... Alguns meses após o término (ou seriam alguns anos? A mente humana de fato é um campo complexo quando se trata de memórias) tracei o seguinte diálogo (que sei ter sido por mensagem, mas porque não romantizar uma ligação telefônica?):

-Alô?

-Oi! Tudo bem? Posso te pedir um favor?

-Claro!

-Posso dormir na sua casa?

-Hm.... Hoje?

- É! Hoje! Posso?

-É que hoje eu vou sair com uns amigos....

-Mas eu posso?

-....

-É... É que eu queria dormir na sua casa! Não tô pedindo pra dormir com você não....

-Bom... se você quiser... posso deixar a chave com vc....

-Seria maravilhoso!


    E assim eu fui. Dormir na casa de um ex. Um não. Dormir na casa Do meu ex. Aquele que a gente sabe que é inesquecível e merece um destaque diferente dos outros... Fui. Passei sozinha uma noite em sua casa. Vesti seu pijama. Tomei seu vinho. Ouvi seus discos. Discos mesmo, de vinil. Amava. Ainda amo. E foi uma noite revigorante. Não consigo lembrar os perrengues pelos quais passava naquela época, mas me lembro da sensação de me sentir acolhida por aquela casa, por aquele pijama, por aquele vinho, pelos discos... Pensando que esse término já tem lá seus dez anos, essa vivência já deve ter, no mínimo, uns oito anos. Ainda hoje quando comento sobre esse fato com alguma amiga próxima, sinto um certo olhar de reprovação. Daqueles olhares que fazem a gente ter a confirmação que somos loucas. Neurodivergentes. Algo do tipo. 

    Já se passam dez anos que essa relação teve um fim. E posso afirmar com certa segurança que  muito do que ela deixou no meu imaginário já foi suficientemente trabalhado... Já foi assimilado, absorvido, ressignificado. Mas esse fato simplório de depois do término... Esse fato tão pequeno e delicado... Devo dizer que toda vez que peso nele, percebo o quanto a medida tempo é relativa. Por mais que façam tantos anos, devo dizer que ainda entendo esse ato. Esse pedido. Essa vontade de dormir uma noite neste lugar. Ainda hoje sinto vontade de refazer esse mesmo pedido. Desejo de retornar a esse tempo espaço que me fazem sentir tão acolhida, tão em casa... Complexo. Visto que isso é impossível. Esse espaço já não existe mais. Metaforica e literalmente. Não existe. O que ainda existe é a vontade de mandar aquela mensagem "Ei! Posso dormir na sua casa essa noite?".    Aquela vontade de me sentir em um lar que não existe mais. O que fazer com essa voz que clama no calar da madrugada?

quarta-feira, 4 de agosto de 2021

Devaneio Pessoal

    O vapor do café se mistura à fumaça do cigarro, somando-se harmonicamente ao monopaladártico amargo da vida. 
    Lembro-me de meu amor infantil por Fernando Pessoa (o primeiro amor que tenho lembrança). 
    Queria poetar como ele. 
    Não. Não chego a tamanha pretensão. Queria apenas poder vê-lo poetar da janela do quarto andar que habitava. Mesmo andar que o meu, não fosse a distância de tempo e espaço tão grande em anos... quilômetros... Mas na velocidade delirante da mente tudo é tão relativo. 

quinta-feira, 13 de maio de 2021

Ensaio sobre a ansiedade

Sinto meu peito partir... 

Sair sem rumo, ir embora e deixar-me aqui sem respirar. Com um imenso vazio visceral onde tento sugar um oxigênio que não vem. 

Sinto meu peito partir. 

Em mil pedaços, estraçalhado. Fico perdida e confusa em meio ao escuro buscando juntar as pecinhas infindas de um espelho quebrado, me cortando no caminho, me perdendo no espaço.

Sinto meu peito partir. 

Ao meio. Exato. Como se fosse eu apenas casca casulo esperando meu fim certo para que um projeto de futuro possa voar.