Ela só sabia comer. Quer dizer, saber saber, ela sabia algumas
outras coisas. Mas o que ela fazia melhor era comer. Comia muito e
sempre que podia. Mas gostava do mundo. Apaixonara-se por ele. Queria
conhecer o mundo! Queria conviver com os seres humanos, fazer parte de
toda aquela complexidade sem sentido para a qual pessoas passavam a vida
tentando inventar razões. Achava engraçado o jeito como os humanos
acreditavam-se tão racionais argumentando sua insensatez. Queria se
aproximar! Que pelo menos alguém a olhasse e ela pudesse olhar fundo a
pessoa em retribuição. Queria muito... Mas comia tanto! Tanto e tão
incessantemente que já não podia nem andar. Rastejava. Rastejava e
comia. E quando não comia, dormia. E dormia quase tanto quanto comia e
rastejava.
Um dia sonhou.
Sonhou que teria o tamanho de
um vôo e que assim poderia ser parte do mundo, na altura e proporção que
desejasse. Acordou, Comeu, Dormiu e Sonhou. Sonhou com um anjo negro
executando um vôo torto. E em meio a um momento de turbulência, derrapou
no horizonte, tropeçou em uma nuvem e caiu perdido, com suas asas
quebradas exatamente no meio dos sonhos dela. Acordou, Comeu, Dormiu e
Sonhou. E quando sonhava, via o anjo. Não sabia se era de fato um anjo
(ainda mais agora que já não tinha asas). Já não importava o nome, o
fato é que ele estava sempre lá.
E um dia comeu, dormiu e
sonhou que o anjo culpava-a de seu aprisionamento. Acordou. Comeu,
dormiu e sonhou que o anjo a amaldiçoava.
Comeu e Dormiu, e as
palavras soavam com muita clareza: “Teu ciclo marásmico de mediocridade
terá fim. Não mais irás viver para devorar o mundo para logo depois vir
sonhar-me. Terás tua liberdade. Terás asas. Não mais estarás presa ao
rastejar. Finalmente pertencerás ao mundo. Porém, terás apenas um dia.
Um dia para ser livre como jamais sonhastes! Apenas e tão somente um
dia. E essa é a maldição de um anjo”.