quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Ela só sabia comer...

     Ela só sabia comer. Quer dizer, saber saber, ela sabia algumas outras coisas. Mas o que ela fazia melhor era comer. Comia muito e sempre que podia. Mas gostava do mundo. Apaixonara-se por ele. Queria conhecer o mundo! Queria conviver com os seres humanos, fazer parte de toda aquela complexidade sem sentido para a qual pessoas passavam a vida tentando inventar razões. Achava engraçado o jeito como os humanos acreditavam-se tão racionais argumentando sua insensatez. Queria se aproximar! Que pelo menos alguém a olhasse e ela pudesse olhar fundo a pessoa em retribuição. Queria muito... Mas comia tanto! Tanto e tão incessantemente que já não podia nem andar. Rastejava. Rastejava e comia. E quando não comia, dormia. E dormia quase tanto quanto comia e rastejava.
Um dia sonhou.
     Sonhou que teria o tamanho de um vôo e que assim poderia ser parte do mundo, na altura e proporção que desejasse. Acordou, Comeu, Dormiu e Sonhou. Sonhou com um anjo negro executando um vôo torto. E em meio a um momento de turbulência, derrapou no horizonte, tropeçou em uma nuvem e caiu perdido, com suas asas quebradas exatamente no meio dos sonhos dela. Acordou, Comeu, Dormiu e Sonhou. E quando sonhava, via o anjo. Não sabia se era de fato um anjo (ainda mais agora que já não tinha asas). Já não importava o nome, o fato é que ele estava sempre lá.
     E um dia comeu, dormiu e sonhou que o anjo culpava-a de seu aprisionamento. Acordou. Comeu, dormiu e sonhou que o anjo a amaldiçoava.
     Comeu e Dormiu, e as palavras soavam com muita clareza: “Teu ciclo marásmico de mediocridade terá fim. Não mais irás viver para devorar o mundo para logo depois vir sonhar-me. Terás tua liberdade. Terás asas. Não mais estarás presa ao rastejar. Finalmente pertencerás ao mundo. Porém, terás apenas um dia. Um dia para ser livre como jamais sonhastes! Apenas e tão somente um dia. E essa é a maldição de um anjo”.
   

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